1- A reconstrução da unidade
O PT mineiro vive hoje o impasse mais importante de seus trinta anos. Isto é verdade seja pela representação pública muito ampla das duas lideranças em disputa, seja pela ponderação equivalente das coalizões de forças internas, seja pelas repercussões decisivas de seus resultados. Mais importante ainda: parece esgotada a legitimidade dos princípios da democracia petista quando os próprios procedimentos para aferição de maiorias, como se revelou no recente PED, tornaram-se incertos e publicamente questionados. De fato, não é uma situação recente: a carência de unidade e diálogo do PT mineiro já havia se revelado com força em 2006 e atingido uma expressão dramática nas últimas eleições em Belo Horizonte. A novidade agora é que o acúmulo de desencontros criou uma cultura de pré-cisão e de mútua desqualificação além das implicações ultrapassarem o contexto regional e serem dramaticamente explosivas para as próprias eleições presidenciais de 2010.
E, no entanto, seja pela força de seu carecimento ou pelo absoluto de sua necessidade, a unidade do PT mineiro – estamos convictos disso – se imporá ao espírito sectário da disputa. Pois toda liderança, tendência ou coalizão de forças do PT que se revelar aquém desta força de carecimento ou deste absoluto de necessidade através dos quais a unidade reclama seus direitos, estará atestando a sua minoridade ético-política, a estreiteza de seus horizontes e a sua falta de responsabilidade política com os destinos do povo brasileiro.
Para começar a escavar no sentido da unidade política, o primeiro passo é reconhecer a absoluta legitimidade na cultura e na história recente do PT das duas pré-candidaturas em disputa. Patrus Ananias vem de uma notável gestão de políticas públicas que têm contribuído de forma decisiva para o maior ciclo de inclusão social da história brasileira. Fernando Pimentel tornou-se uma liderança petista central em Minas ao ser protagonista – desde a Secretaria da Fazenda na gestão Patrus, na gestão Célio de Castro, na vice-prefeitura e, depois, como prefeito reeleito – de um ciclo de profundas transformações democráticas e populares e progressistas na capital mineira.
Em segundo lugar, não se tratam de pré-candidaturas personalistas mesmo que se apóiem em legítimas vontades pessoais. Pois elas mobilizam ponderáveis coalizões de forças internas ao PT, tornaram-se expressões de projetos políticos destas forças.
O terceiro fundamento da unidade vem da dinâmica nacional unitária do PT. Esta dinâmica unitária, refletindo a maior aproximação do segundo mandato do governo Lula ao programa histórico do PT, está centrada na polarização política com o PSDB\DEM, em uma aliança mais virtuosa com os movimentos sociais e em uma perspectiva de aprofundamento das transformações em uma direção crítica e alternativa ao neoliberalismo. A dinâmica unitária do PT Nacional e a liderança pública do presidente Lula criam vetores capazes de neutralizar os impulsos sectários ou cisionistas alimentados pela forma como a disputa vem sendo travada no PT mineiro.
São estes três fundamentos de unidade que permitem avançar uma qualificação indispensável: as pré-candidaturas Patrus Ananias e Fernando Pimentel são alternativas e não adversárias, Isto é, elas deveriam disputar mais pela qualificação do que pela mútua desqualificação. Qualquer petista não sectário deveria ser capaz de reconhecer que Minas governada por Patrus Ananias ou por Fernando Pimentel seria um avanço qualitativo em relação à atual gestão do PSDB.
Para avançar na construção da superação do impasse, deveríamos, então, ser capazes de qualificar politicamente as alternativas em disputa.
2- Duas razões disputam o coração do PT
No interior do pluralismo petista, há de fato diferenças políticas substantivas de identidade e de projeto entre as lideranças de Patrus Ananias e de Fernando Pimentel.
A liderança política de Fernando Pimentel,que veio ganhando maior nitidez nos últimos anos, pode ser rigorosamente definida como de centro-esquerda. Não devem ser entendidas como mera retórica ou pragmatismo adaptativo as suas reiteradas afirmações em favor de uma convergência histórica entre o PT e o PSDB bem como a definição de uma postura não oposicionista ao governo Aécio Neves. Seria sectarismo, no entanto, identificar esta identidade ao PSDB. O campo histórico de sua formação foi o universo do PT. Sua formação de economista desenvolvimentista protege-o de uma adesão ou conformação ao neoliberalismo. Sua gestão na prefeitura de Belo Horizonte trouxe importantes conquistas nas áreas sociais. Mas também é verdade que seus laços com a cultura do socialismo democrático foram sendo desvanecidos, suas imensas qualidades de gestor acentuaram a perspectiva institucional em detrimento de uma relação com os movimentos sociais, o que introduz um forte viés hierárquico e oficialista nas suas relações com o próprio PT.
De forma coerente, as tendências e lideranças políticas que apóiam a sua pré-candidatura ao governo de Minas pertencem, em geral, ao campo mais pragmático do PT mineiro. A estratégia eleitoral que resultaria desta pré-candidatura combinaria três elementos: um forte posicionamento de voto de partida, um diálogo competitivo com a base eleitoral do aecismo em MG, procurando deslocar “por dentro” a preferência do eleitorado ao postulante oficial do PSDB e,em terceiro lugar, o apoio na dinâmica nacional da candidatura Dilma Rousseff.
A liderança política de Patrus Ananias pode ser corretamente identificada como herdeira e centro de convergência do campo democrático-popular ou de esquerda em Minas Gerais. Sua gestão do Ministério do Desenvolvimento Social, uma das principais marcas do governo Lula, é profundamente exitosa ao conseguir institucionalizar e republicanizar uma política pública de vasta abrangência, complexa administração e tão duramente atacada pelas oposições. Hoje, a principal liderança cristã nacional do PT, com uma forte referência de ética pública,tem uma extraordinária capacidade de ser, ao mesmo tempo, muito amplo e radical, de falar para muitos afirmando a identidade do PT, de compor potencialmente uma ampla adesão dos setores populares e das classes médias progressistas.
De forma também coerente, as tendências e lideranças mobilizadas em torno de sua pré-candidatura compõem a centro-esquerda e a chamada esquerda petista em Minas. Os três fatores que impulsionariam a estratégia desta candidatura seriam: um bom posicionamento de partida e um grande potencial de crescimento em função de sua nítida vinculação com o programa mais popular do governo Lula, uma maior disposição a compor alianças de primeiro ou segundo turno com a base do governo Lula e, enfim, uma maior capacidade de aliar a campanha institucional com uma campanha militante e ativa dos movimentos sociais.
3- As vantagens da candidatura Patrus Ananias
Já é possível diagnosticar, com um grau importante de probabilidade, a cena eleitoral da disputa para o governo de Minas em 2010.
O primeiro fator organizador desta disputa é a cristalização da alta aprovação do governo Aécio e seu empenho em transmitir este capital político à candidatura de Anastasia. Esta cristalização é uma construção que fez convergir cinco vetores: a pré-candidatura de Aécio à presidente que apelava à unidade de todos os mineiros; a construção de uma amplíssima base de apoio, atraindo vários partidos da base do governo Lula; a conquista de um certo padrão de ativismo gerencial e de investimentos, valendo-se dos novos ventos econômicos favoráveis da conjuntura nacional e de melhores condições das finanças públicas; a ausência de uma oposição pública nítida a seus projetos, em função da inflexão de lideranças centrais do PT no estado; uma relação de não oposição frontal ao governo Lula – à diferença do PSDB de São Paulo - ,o que lhe abriu amplo espaço de apropriação política de obras e programas federais em Minas.
Esta cristalização perde nesta disputa em 2010 três vetores de sua reprodução: a “universalização” do apelo à mineiridade que decorria de sua candidatura à presidência; a perda em certo grau de sua ampla base partidária de apoio (com a saída, pelo menos, do PMDB); um espaço político não disputado pela ausência de uma oposição pública constituída. Neste sentido, seria um grande erro subestimar a força da candidatura de Anastasia (dificilmente ele estará ausente de um eventual segundo turno), mas seria um erro maior ainda julgá-la imbatível.
O segundo fator organizador desta disputa é a formação das coalizões de primeiro turno e de alianças em um eventual segundo turno. Hoje, o mais provável é que o PMDB alinhe-se com uma candidatura de oposição em um primeiro ou segundo turno; a liderança pública em formação do prefeito da capital, Márcio Lacerda, teria dificuldade para se alinhar com automatismo à candidatura peessedebista; não menos importante, podendo ser decisiva, é a liderança pública de José de Alencar,moralmente fortalecida pela exemplaridade de sua luta pela vida. Em um quadro de coalizão enfraquecida, a candidatura de Anastasia terá enorme dificuldade para ser vitoriosa.
Um terceiro fator organizador da disputa é a eleição presidencial. Hoje, parece pouco provável a aceitação da vice, por parte de Aécio, na chapa de Serra. Este é um outro campo desfavorável a Aécio e, ao que tudo indica, de forma tendencialmente favorável à oposição. O mais provável é que, num contexto defensivo da candidatura Serra, a postura de Aécio e de seu candidato caminhe no sentido de desvincular as duas dinâmicas, como ocorreu nas eleições passadas.
Nestes três campos que organizarão a disputa, o melhor posicionamento identitário e estratégico da candidatura de Patrus Ananias dificilmente pode ser negado.
Em primeiro lugar, a estratégia de “deslocar por dentro” da base eleitoral de apoio a Aécio a candidatura de Anastasia não parece a mais viável. Isto seria mais factível no caso da candidatura de Anastasia nascer fraca ou não conseguir ocupar rapidamente o núcleo deste apoio, não apenas eleitoral, mas também junto à coalizão das classes dominantes que formam o núcleo duro do governo Aécio. É muito provável que ocorra o contrário: na condição de governador, com sua visibilidade ampliada, o fator de continuidade de governo operará com força desde o início do processo eleitoral. Por outro lado, a construção inteligente e que não colida de frente com a forte aprovação cristalizada do governo Aécio, de uma alternativa por parte de uma eventual candidatura Pimentel será contraditória com o discurso nos últimos dois anos de elogios, sem restrições, ao governo Aécio e que culminou no apoio comum à candidatura de Márcio.
4- Lacerda a prefeito de Belo Horizonte.
Por sua vez, a candidatura Patrus Ananias poderá firmar um primeiro apoio na ampla base de apoio ao governo Lula, conforme a sua identidade mais nítida, e ir no processo construindo uma alternativa a partir da crítica aos pontos fracos do governo Aécio (inclusive e, principalmente, as políticas sociais).Um campo oposicionista, que consiga dialogar criticamente com a ampla base de apoio ao governo Aécio,poderá ir se formando até desaguar em uma unidade ampla por uma nova alternativa de programa no governo de Minas,mais afim ao perfil do governo Lula.
Em segundo lugar, para o processo de formação de coalizões no primeiro turno e em um eventual segundo turno, a candidatura de Patrus permite certamente uma abordagem muito mais ofensiva. Isto porque no processo recente das eleições para a prefeitura de belo Horizonte todo o movimento liderado pelo companheiro Pimentel foi no sentido de preterir o PMDB, o PC do B e a liderança do vice-presidente Alencar em nome da convergência com o PSDB.Isto não significa negar, de modo algum que um novo campo de alianças possa ser recomposto por uma candidatura Pimentel. Significa apenas mais dificuldade de interlocução nesta área. Apenas em relação ao apoio da liderança em formação do prefeito de Belo Horizonte terá Pimentel um aliado seguro, ao contrário de Patrus que, inclusive, não se posicionou no segundo turno das eleições em Belo horizonte. Mas este apoio não agrega ao já importante apoio desfrutado pelo companheiro Pimentel na grande Belo Horizonte.
Em terceiro lugar, o esforço de colar a campanha estadual na dinâmica nacional de disputa teria, por todos os motivos, seguramente muito mais potencial na candidatura de Patrus, em função de sua identidade muito firmada junto ao programa social de maior apelo popular no governo Lula. Isto lhe permitira disputar o apoio dos setores médios com o PSDB e, ao mesmo tempo, crescer nos setores populares, onde a candidatura de Anastasia terá certamente mais dificuldades.
Estas três vantagens agregadas conferem à candidatura Patrus Ananias um potencial muito maior de crescimento que mais que compensam a pequena e em diminuição vantagem eleitoral de partida da candidatura Pimentel em relação àquela de Patrus.
Construir as prévias da unidade do PT
Afirmar que a realização de prévias no PT pode conduzir a um conflito público e sectário de lideranças, desconstruindo o patrimônio eleitoral do partido,é tão banal quanto dizer que uma decisão unilateral de cúpula ou um acordo que se imponha sem consenso podem ser igual ou ainda mais danosos à construção de um caminho ao governo de Minas. A variável tempo é importante mas ela, de toda forma, deve se subordinar à construção de uma coalizão mais ampla,que se relaciona também com definições nacionais ainda não firmadas. E mais: uma pré-candidatura petista, legitimada por prévias, terá muito mais credibilidade para negociar com outros partidos do que na situação atual, na qual o impasse diminui o tamanho das duas lideranças públicas do PT em disputa.
O exemplo da candidatura de Obama ainda está bem fresco: prévias construídas com protocolos de unidade e procedimentos inquestionáveis (inclusive com o apoio da direção nacional do PT), centradas no debate amplo das identidades e programas para o governo de Minas podem se transformar em um palco de mobilização da base social do PT, para ativar as suas energias e – mais importante – forçar o diálogo das duas lideranças públicas do PT em um clima de mais fraternidade e politização. O que pode resultar de prévias assim construídas é o início de um protagonismo, institucional e de mobilização, que será indispensável para uma disputa que enfrentará um adversário fortemente entrincheirado nas instituições do Estado e que contará com forte apoio financeiro e midiático.
Não será possível vencer Anastasia sem a unidade do PT – principalmente com a colaboração ativa entre Patrus e Pimentel, somando suas virtudes e superando suas mútuas limitações – e sem um clima de grande mobilização social e de esperanças. As prévias da unidade podem muito bem iniciar este caminho.
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